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Pelas Terras da Coroa

A busca pelo novo ou até mesmo pelo desconhecido sempre esteve presente na história da arte movendo e impulsionando artistas em suas produções, o colocando em novos contextos, sobretudo a partir da saída do seu ateliê, em busca de novas paisagens. No Brasil do descobrimento, por exemplo, temos como grande importância histórica a chegada de artistas europeus, como Albert Eckhout e Frans Post, que vieram na comitiva de sábios acompanhar Maurício de Nassau, entre 1637-1644, em suas viagens por ocasião da ocupação das terras açucareiras de Pernambuco pelos holandeses, de onde estendem seu domínio posteriormente para o Maranhão e Sergipe. Nesse contexto foram produzidos desenhos e pinturas que tentavam ao máximo registrar e traduzir esse novo mundo encontrado, costumes, povos e um cotidiano que revelassem esse lugar, Terra Brasilis.

Em seu novo projeto, o Grupo Aluga-se lançou-se mais uma vez ao desafio de partir para uma experiência rumo à um novo contexto para a realização de um projeto.  Através do Prêmio Rede Nacional Funarte Artes Visuais – 11ª Edição, os artistas Evandro Prado, Giba Gomes e Yara Dewachter, embarcaram para São Miguel dos Milagres, litoral de Alagoas, onde permaneceram por 20 dias, realizando oficinas com o público local, e por fim realizaram a exposição Pelas Terras da Coroa.

Durante o exercício como governador da Capitania de Pernambuco, o português Matias de Albuquerque, teve diversos problemas, perdendo primeiramente Olinda e depois Recife para os domínios das Holanda, sob o comando do holandês Maurício de Nassau. Dentro deste processo de disputa territorial, um personagem nascido em Alagoas teve um importante papel como traidor. Domingos Fernandes Calabar se aliou aos holandeses o que acabou por facilitar a ampliação dos territórios colonizados pela Holanda. Por fim, São Miguel dos Milagres não foi dominada pelos holandeses, e a soberania portuguesa se estabeleceu no território brasileiro.

Evandro Prado partiu dessa história local para desenvolver os trabalhos da exposição. Na obra Reino de Nova Holanda, o artista desenvolve mapas, brasão, moeda em homenagem a Maurício de Nassau, e projeto para um obelisco em homenagem a Calabar, com referências neoclássicas e egípcias comuns aos obeliscos. Assim o artista cria uma história da cidade ficcional, explorando a possibilidade da região ter sido colonizada pelos holandeses, especulando através dessa hipótese, como seria essa outra história, seus elementos de registros territoriais, símbolos econômicos e culturais; como seria se a colonização de São Miguel dos Milagres fosse outra, se de fato os Holandeses tivessem conseguido se instalar lá e se, juntamente com as demais cidades invadidas, tivessem mantido a colônia.

Assim como Evandro, Giba Gomes também partiu de elementos da história da Cidade para o seu trabalho, mas com foco justamente entre uma conexão entre os fatos históricos e a São Miguel dos Milagres contemporânea. Em Calaaboca, o artista parte das figuras históricas Domingos Fernandes Calabar e Matias de Albuquerque, Governador deposto da capitania de Pernambuco para desenvolver seus trabalhos. Deste modo, cartazes com as imagens destes personagens foram espalhados pela cidade, onde se lia ‘Calaaboca Calabar’ e ‘Calaaboca Mathias’, em referência a peça de teatro Calabar: O elogio da traição de Chico Buarque. Em outro trabalho, se apropriou de um bilhete de loteria dos anos 1970 que carrega a imagem de Matias, para criar um bilhete premiado, onde a imagem de Matias se vê obrigada a conviver com a imagem de seu arqui-inimigo Calabar.

Já Yara Dewachter, se debruçou na historia pessoal da população local. Durante a residência a artista buscou famílias que estavam na cidade há pelo menos três gerações. Encontrou oito pessoas dentro deste limite estipulado. A partir dai, em conversa com essas pessoas, solicitou imagens dos patriarca ou matriarca, a pessoa da geração mais antiga daquela família a residir em São Miguel dos Milagres. A partir dessas imagens, realizou desenhos dessas figuras, que foram emoldurados em molduras barrocas, e instaladas nas casas, de maneira solene, afim de resgatar a presença e a importância desse familiar. Aqui morava um rei, nome do trabalho, foi apresentado na exposição através de fotografias, que registram o desenho instalado, com os familiares posando ao seu redor.

Assim Pelas Terras da Coroa tomou forma, e entre 21 de abril e 4 de maio de 2015 ocupou o casarão histórico ‘Vila Ruth’, de 1935. Divulgada através de banners, cartazes, e moto propaganda, meios de publicidade característicos da região, a exposição se configurou quase como um Museu Casa de uma história ficcional, com seus desdobramentos contemporâneos e estudo da comunidade local, em investigação da gênese histórica da cidade, e de sua população, através de hipóteses artísticas.

Douglas de Freitas

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