Texto

Abrir e fechar, poesia num piscar de olhos.

A gaveta hospeda a memória, emoldura um recorte no tempo. Existem gavetas que guardam segredos, organizam histórias, que abraçam seus hóspedes e depois os lançam para a vida. Existem gavetas cúmplices, as que contêm o indizível, o misterioso; existem gavetas solenes, marginais e esquecidas. Existem gavetas que escondem e são escondidas. A gaveta tem o poder de respirar mesmo estando fechada por muito tempo, sua troca é outra. Existem gavetas à espera do ato de abrir e outras loucas por um descanso.

A ordem de uma gaveta é uma questão à parte. Nunca acredite na evidência de sua organização ao abri-la, é preciso ir além de seu inventário, sentir os aromas da poeira assentada, da cera derretida na terebintina, sua transparência e opacidade.

Aos olhos alheios, toda gaveta ao ser aberta, revela-se. Vasculhá-la é romper o código e, de certa forma, o prazer é acionado. Basta uma olhadela ao redor e a permissão é dada. Mas quando um empilhamento de gavetas lhe convida a abrir uma e dividir com esta seus mistérios, inicia-se um novo jogo, uma caça ao tesouro, onde o tempo de escolha se expande ao tempo literário, aquele em que adiamos virar a página na certeza do êxtase. Não mais o voyeur, mas o personagem principal daquele ato, com luz e sonoplastia próprias. O ato atinge seu ápice entre o abrir e o fechar da gaveta escolhida. Um instante de pura poesia, poesia num piscar de olhos.

Márcia Porto

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Open and close, poetry in the wink of an eye.

The drawer lodges the memory, frames a moment in time. There are drawers that keep secrets, organize stories, welcome their guests and later throw them out into the world. There are drawers that are accomplices, those that contain the unspeakable, the mysterious; there are drawers that are solemn, marginal and forgotten. There are drawers that hide and are hidden. The drawer has the power to breathe even though it has been closed for a long time, its exchange is something else. There are drawers waiting for the act of opening and others that cannot wait for rest.

The orderly state of a drawer is a separate issue. Never believe in the evidence of its neatness when you open it, you need to go beyond its inventory, feeling the aromas of the dust that has settled, of the wax melted in the turpentine, its transparency and opaqueness.

To the prying eyes, every drawer reveals itself when opened. To rummage through it is to break the code and, in a certain way, pleasure is activated. Just one glance and permission is granted. But when a pile of drawers invites you to open one and share its mysteries, a new game begins, a treasure hunt, where the time to choose is expanded to the literary time, the time in which we delay turning the page because we are certain of the ecstasy. No longer the voyeur, but the main character of that act, with your own light and sound design. The act reaches its peak between the opening and closing of the chosen drawer. An instant of pure poetry, poetry in the blink of an eye.

Márcia Porto

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Abrir y cerrar, poesía entre parpadeos.

La gaveta aloja la memoria, enmarca un recorte en el tiempo. Existen gavetas que guardan secretos, organizan historias, que abrazan a sus huéspedes y después los lanzan para la vida. Existen gavetas cómplices, las que contienen lo indecible, lo misterioso; existen gavetas sólenes, marginales y olvidadas. Existen gavetas que esconden y que son escondidas. La gaveta tiene el poder de respirar aunque esté cerrada por mucho tiempo, su intercambio es otro. Existen gavetas a la espera del acto de abrir y otras locas un descanso.

El orden de una gaveta es una cuestión a parte. Nunca crea en la evidencia de su organización al abrirla, es necesario ir más allá de su inventario, sentir los aromas del polvo depositado, de la cera derretida en la terebintina, su transparencia y opacidad.

A los ojos ajenos, toda gaveta al ser abierta, se revela. Investigarla es romper el código y, de cierta forma, el placer es accionado. Basta una mirada alrededor y el permiso es dado. Pero cuando un apilamiento de gavetas lo invita a abrir una y dividir con esta sus misterios, se empieza un nuevo juego, una caza al tesoro, donde el tiempo para escoger se expande al tiempo literario, aquél en que postergamos volver la pagina con la certeza del éxtasis. No más el voyeur, pero el personaje principal de aquel acto, con luz y sonido propios. El acto alcanza su ápice entre el abrir y cerrar de la gaveta elegida. Un instante de pura poesía, poesía en un abrir y cerrar de los ojos.

Márcia Porto

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