Pagou Levou São Paulo


Pagou levou 

“Aluga-se” – a frase é um exemplo clássico de sujeito indeterminado quando se estuda gramática. Essa indefinição de autoria dá o tom da exposição “Pagou Levou”. Embora os trabalhos que estejam expostos sejam bastante singulares e possamos identificar neles diversas autorias, eles estão unidos por um nome que os despersonaliza, que privilegia o conjunto, em detrimento do particular. Nessa exposição, a autoria coletiva e individual entram em disputa, rivalizam, alternam-se. Ora somos tentados a ver os trabalhos separadamente, ora observamos a ação de um grupo coeso – e o grupo, nesse caso, é maior do que a soma de seus elementos, pois os trabalhos juntos, assim dispostos, constituem um outro discurso, mais amplo, direcionado ao circuito da arte.

Como intervenção no circuito, a ideia de transitoriedade expressa no nome do grupo,“Aluga-se”, é essencial. O aluguel é um contrato temporário que permite que alguém se instale, permaneça, habite determinado lugar, sempre por um período de tempo limitado. A duração de um contrato, de um acordo, de uma exposição. O lugar da arte hoje assemelha-se inevitavelmente ao lugar ocupado por todos os que moram nas grande metrópoles. É cambiante e instável, não permite enraizamentos profundos como a vida de outrora, talvez, propiciasse.

Mas o que, afinal, está para alugar? Uma parede toda da galeria foi deixada em branco, desocupada, como se estivesse ainda em montagem, embora a exposição já esteja aberta. Mesmo com uma parede inteira ociosa, não há vagas. Não há vagas para outros trabalhos e artistas. “Sinto muito, mas já estamos fechados”. Essa parede nua não é silenciosa e neutra. Ao contrário, ela sozinha faz uma análise do circuito de arte, no qual não parece faltar espaço, mas sim oportunidades. Tal como os imóveis desocupados, que não cumprem nenhuma função social, servindo apenas para a especulação imobiliária (imóveis que aguardam, fechados, sua valorização financeira) a parede revela: é necessário haver muito mais artistas no mundo do que o número que pode ser abarcado pelo mercado. Essa parede em branco poderia se chamar, num marxismo para lá de torto,“exército de reserva”, em homenagem a todos os artistas sem galeria ou sem espaço no circuito.

As oscilações entre experiências pessoais e experiências compartilhadas socialmente dá a tônica da  exposição do grupo Aluga-se. Além de ser uma questão cara a todos os artistas da exposição, ela está no cerne da própria criação do grupo: uma tentativa de articular poéticas próprias com pensamento crítico coletivo.

Thais Rivitti